Viver Mais Simples

Lá de onde eu vim

Publicado por Leticia Carneiro em 24/02/2011 | 7 Comentários

Hoje meus avós Celso e Gisela fariam juntos 186 anos. 101 dele, 85 dela.  Raízes vivas em mim.  Constituintes do que sou hoje e venho sendo a cada dia.
Presentes na simplicidade de seu afeto, na dureza pragmática de quem foi criado num outro tempo, sem tantas explicações. Semearam em mim sua Fé em Deus e nos homens.
Meu avô era homem emotivo e romântico, pelo menos depois de mais velho. Sempre me lembro deste diálogo entre os dois, que presenciei:

“Eu amo esta mulher” (minha avó, claro.).
Vovó, ruborizada: “Então deseje a sua neta um noivo que a ame assim também.”
Resposta de meu avô, do alto de quase cinco décadas de vida em comum: “Impossível.  Não existe amor igual ao meu por você“.
Meu avô foi durante muitos anos empregado de uma loja. Sem fazenda em terra de fazendeiros, filho caçula de uma família que perdeu muito com a crise de 29.  Soube construir sua vida apesar dos obstáculos, da instrução limitada, do jeito franzino. Sabia de cor os três momentos mais felizes da sua vida:
O dia em que me casei. O dia em que nasceu minha primeira filha. O dia em que comprei minha primeira fazenda, com setenta anos.”.
Minha avó foi mulher de muitos papéis.  Esposa por 48 anos, os últimos cuidando do marido dezesseis anos mais velho e já doente.
Mãe de seis filhos. Avó de nove netos.  E ainda curtiu bastante o primeiro dos quatro bisnetos.
 Mas não era só mulher de família, que sentava á mesa por último e acordava ás 6h para buscar pão.  Era também professora, Franciscana militante, voluntária em ONG, irmã presente.  Pianista, cantora, escritora, compositora. Como disse sua irmã Lili, no dia do seu enterro: “Gisela realizou todos seus talentos”.
Minha avó foi criança e jovem serelepe, de verve e ousadia. Quase foi freira, mas voltou para casar-se com o homem que vinte anos antes dissera, “Essa é minha”. Nasceram no mesmo dia, destinados desde sempre a uma história de amor.


Hoje homenageio este casal com quem tanto aprendi. Honro esta história de luta, dificuldade, alegria e realização.
A minha história.
Minha  inspiração para que eu honre também meus frutos, meus filhos e os netos que, quiçá, virão.
Feliz Aniversário Vovô Celso! Feliz Aniversário, Vovó Gisa. Boa festa aí no céu!

  • Daqui a 7 anos, eles merecem um evento de bicentenário, hein? Cai inclusive num sábado.
    Eu escrevo a paródia in memorian.
    Ou quem sabe uma canção inédita…
    Bjs
    Luiz

  • "Se você não estiver dando ao mundo o melhor de si, para qual mundo você está se guardando"?
    Esta frase acima, estava no e-mail que recebi de uma grande amiga, minutos antes de ler o seu blog sobre o aniversário conjunto dos avós paternos.
    E eu acho que se aplica bem, porque Tio Celso e Gisela deram ao mundo o melhor deles. Pequenas delicadezas me vêm à mente: ele plantou um pé de jasmim na Chacrinha porque eu gostava; ela me ensinou a fazer goiaba em calda e pegou na cristaleira uma das famosas compoteiras de cristal para guardar minha primeira tentativa.
    Gente muita fina, os dois! Que bom que unidos se eternizam em nossa lembrança.

  • Gigi 7 anos atrás

    Que lindo texto, Letícia. Que bom que temos na família você, que escreve tão bem, para prestar essa homenagem a eles. Fiquei emocionada! Cada um presta homenagem do seu jeito, Celsinho mandou celebrar uma missa e Bia desejou ter um foguete para enviar um bolo de aniversário para eles, no céu.
    Tivemos muita sorte de ter pessoas como eles para nos servir de exemplo.
    Lembro de 2 frases em especial. Quando eu estava estressada trabalhando e estudando ao mesmo tempo, papai me disse, "Minha filha, se eu venci com todas as dificuldades, você vai vencer também. Outra época de doença de filha, mamãe me disse: "Você passou por essa dificuldade e isso vai te deixar mais forte, na próxima vez que tiver um problema, você vai pensar que do mesmo modo que você superou esse problema, vai superar os outros que surgirem." Muito sábios!

  • Lindo texto que compartilho 100 % e que merece ser desenvolvido! Eles tambem fazem parte de minha vida, e sei que sao importantes para muitos de nos.
    Com carinho a todos vocês,
    François

  • Emocionante o texto e gostei muito da sugestão de Bat. Lembro que Tio Celso gostava de brincar conosco pegando uma mecha do meu cabelo e outro da minha irmã e fingir que dava um nó. Muitos anos depois minha sobrinha, que naturalmente não conheceu Tio Celso, repetiu a brincadeira comigo e a mãe dela. As lembranças de Tia Gisa são muitas, não daria para enumerar…
    Beijos,
    Cláudia

  • Lindo Leti! Obrigada por compartilhar…sempre.

    Bjo, Mari

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